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domingo, 16 de março de 2014

O BRASIL NÃO É MAIS UM CELEIRO MISSIONÁRIO



Conheci a Cristo no final dos anos 90. Minha experiência de conversão se deu em uma igreja batista recém-plantada na minha cidade. Meu batismo e minha experiência de discípulo começou no inicio do ano 2000, na igreja Assembleia de Deus. Eu vivi uma parte do movimento AD2000 (1) e da chamada  “Década da Colheita” (2), e de certa forma toda minha geração foi influenciada por estes movimentos.  Uma e outra vez, escutávamos a frase: “O Brasil é um grande celeiro de missionário”. Por nossa pequena igreja passavam alunos da “Missão Horizontes” falando sobre a janela 10/40 e sobre como o brasileiro gasta mais com Coca-cola do que com o Reino de Deus. Após o culto, nós doávamos aquilo que tínhamos para as missões. Lembro-me de um diácono pobre doando um relógio a um missionário que havia perdido o seu em uma viagem de barco na Amazônia. Lembro-me também de um amigo que constrangido pela necessidade da obra e sem nada para doar, tirou dos pés um par de tênis Nike e colocou sobre o altar, voltando para casa descalço depois do culto. A gente dava o que tinha, e não era por causa de alguma promessa de retorno financeiro (como nas campanhas dos televangelistas atuais), mas simplesmente por amor e desejo de ver o evangelho avançando entre as nações da terra. Os jovens da igreja (e eu era um deles) eram muito ativos: organizavam jograis e teatros com temas missionários, e muitos de nós queríamos ser pastores ou missionários. Hoje, vários daqueles jovens com os quais cresci são pastores, evangelistas, missionários, obreiros em suas igrejas locais, e estão envolvidos de alguma forma com a grande comissão.

UMA IGREJA QUE RESPIRAVA MISSÕES

Mas eu não consigo escrever este texto sem lágrimas nos olhos. Agora mesmo, sinto o peito doer e meus olhos se enchem de água ao me lembrar daqueles dias quando a gente vivia de maneira tão intensa, organizávamos vigílias, acampamentos de oração, visitávamos, evangelizávamos de verdade. Conheço um jovem em Cristo que aos 16 anos tinha uma rotina invejável: Ele fazia semanalmente visitas no hospital da nossa pequena cidade, e saia dali direto para o asilo contrabandeando doces e bíblias para os anciãos com quem passava parte do seu domingo. Por volta das 4 horas da tarde saia dali com outros meninos da sua idade, numa kombi velha da wolksvagen para realizar visitas em uma comunidade rural e "cooperar" com os irmãos de lá. As vezes a Kombi não vinha, e eles faziam o trajeto de 18 quilômetros de bicicleta. Quando chegavam a cidade novamente, era para tomar um banho e ir ao culto, ansiosos por ouvir a Palavra pregada e dispostos a participar, seja cantando, pregando, limpando ou fazendo qualquer outra coisa na igreja local. Durante a semana, ele e outros eram voluntários no “Desafio Jovem Liberdade” – centro de recuperação para usuários de drogas – muitas vezes saindo do trabalho direto para lá, para ensinar violão, passar algum tempo de comunhão com os internos e pregar no culto da noite. Esses rapazes respiravam missões.  

Na época, surgiam seminários com cursos rápidos, em média 2 anos, em regime de internato, onde a ênfase não era apenas preparar teólogos, mas obreiros. Trabalhavam-se questões como caráter, perseverança, domínio próprio, obediência, e grande parte das disciplinas do curso eram de viés missionário. Éramos confrontados com as biografias de William Carey, David Brainerd, Hudson Taylor, Adoniran Judson, George Miller, e nos inspirávamos neles. Criticava-se o modelo de seminário que formava apenas teólogos e falava-se muito em vocação ministerial. Escutávamos uma e outra vez que ser pastor é um dom e não uma profissão, e que o ministério é muito mais dar do que receber. O ponto alto das aulas era quando por lá passava algum missionário em transito, e contava as experiências vividas naquela terra desconhecida. Lembro-me de ter ouvido um desses missionários falando sobre o país dos Incas, e de como me senti desafiado pelo testemunho daquele jovem obreiro. À noite, enquanto orava por aquele país, discerni claramente a voz de Deus falando fortemente ao meu coração: “Eu te levarei ao Peru!”. Cai em pranto, sentindo um misto de temor e imensa alegria, pelo peso da responsabilidade e pela honra recebida. Sai do meu país em 2003, quando ainda se vivia a ressaca destes movimentos.

JOVENS QUE NÃO ALMEJAM O MINISTÉRIO

Hoje a igreja evangélica definitivamente não é a mesma. Ela nem sequer se parece com aquela igreja de 15 anos atrás. Cada vez que viajo ao Brasil, fico absorto com a secularização cada vez maior da igreja. Vejo uma igreja rica, muito rica, mas tremendamente ensimesmada. Em círculos tradicionais e na ala pentecostal clássica, pouco se fala em evangelismo e missões. Já os neopentecostais distorceram o conceito de evangelismo e missões transformando a igreja em uma pirâmide e implementando visões celulares das mais absurdas, substituindo paixão missionária por obediência cega a um líder autoritário. Se antes os jovens desejavam o ministério, a geração atual foge dele. É comum ver rapazes de moças de vinte e poucos anos com altos salários, comprando carros importados, fundando empresas, empreendendo e ganhando muito dinheiro. Os pastores destas igrejas sofrem, pois tem que se desdobrar em mil ofícios para atender as necessidades do rebanho, já que ninguém quer se envolver no ministério e sacrificar as horas de descanso para cuidar das necessidades alheias. Alguns poucos ainda ousam se envolver com missões, mas raramente em tempo integral. Ao invés disso, doam parte das suas férias para servir em algum país exótico, e passam 4 ou 5 dias visitando alguma igreja local,  e o resto das férias em alguma praia paradisíaca do Índico ou do Pacífico. Não trabalham nada, mas tiram umas quinhentas fotos com crianças locais e chegam a suas igrejas com testemunhos fantasmagóricos acerca de como salvaram o mundo em seis dias e ensinaram os pastores e missionários locais a pastorearem suas igrejas. 

MISSIÓLOGOS DE INTERNET QUE NUNCA SE ENVOLVERAM COM MISSOES

O conceito de missão tem sido banalizado por uma geração hedonista mais preocupada com seus prazeres do que com glorificar o Cristo entre as nações. Para justificar sua falta de coragem para encarar o campo missionário, criam-se as mais distintas agencias missionárias, muitas das quais não enviam e nem sustentam nenhum missionário, dedicando-se apenas a recrutar voluntários para viagens de ferias, exatamente do tipo que mencionei no último parágrafo. Diga-se de passagem, o dinheiro gasto por uma equipe de voluntários de férias, se fosse doado integralmente a alguma missão séria que trabalhe entre os autóctones, daria para sustentar cerca de 10 obreiros durante um ano. Crer que 20 brasileiros em uma semana podem fazer um melhor trabalho que um obreiro nacional em um ano é um sofisma, mas parece ser este o pensamento predominante nessas missões recém-criadas no Brasil (as exceções conformam a regra).

Embora não estejamos mais tão engajados com missões transculturais, nunca tivemos tantos “ESPECIALISTAS” em missões! Meninos de vinte anos, com pouca ou nenhuma formação teológica, sem experiência de vida ou ministério e cujo maior esforço missionário foi falar de Jesus para o colega de classe, editam blogs e vlogs, dão opiniões e organizam conferencias missionárias onde eles mesmos são os preletores. Recentemente um desses palpiteiros da internet, um garoto de 20 anos, escreveu um livro sobre missões. Muita gente elogiou a atitude do rapaz e não encontrei ninguém, nem mesmo entre a velha guarda evangélica (que também é ativa nas redes sociais) para colocar freio na arrogância do moleque que escreveu suas 120 paginas sobre um assunto que ele nunca experimentou de fato. Há algum tempo recebi duas equipes de voluntários na cidade de Piura, onde desde 2008 temos desenvolvido alguns projetos missionários. Um dos rapazes que nos visitou, ainda nem tinha barba no rosto, mas logo se apresentou como consultor em missões. Segundo ele, varias igrejas no Brasil contam com seus conhecimentos de consultoria. Isso me parece estranho, se considerarmos que ele nunca foi missionário de fato, apenas participou de algumas palestras com ênfase na famigerada e pouco eficaz Missão Integral (3). Recebi deste garoto que nunca fez missões, diversos conselhos sobre como treinar meus obreiros e torná-los mais efetivos. Outros chegam já satanizando a cultura, tendo visões esquisitas acerca de demônios territoriais e correntes que estão aprisionando nossa igreja e missão, algo muito esquisito e sem bases bíblicas em minha opinião. 

UMA JUVENTUDE QUE QUER ENSINAR, MAS NÃO SE PRONTIFICA A APRENDER

Durante os dois últimos meses visitei varias igrejas no Brasil e por onde passei, desafiei pessoas para virem ao campo missionário no Peru, e o máximo que consegui foram uns garotos meio-hippies dispostos a vir salvar o mundo em uma semana e ensinar os pastores a pastorear suas igrejas. Todos os rapazes com quem falei queriam vir e ditar seminários, palestras, conferências, treinamento para pastores, e não atentavam para o ridículo das suas propostas, já que eles mesmos nunca pastorearam nem suas próprias famílias. No entanto, nenhum deles se mostrou disposto a passar ao menos um ano trabalhando de forma sistemática e fiel junto aos nativos, participando da vida, da luta e das dores do povo, compartilhando a comida e vivendo a verdadeira essência da missão. Todos queriam ensinar, ninguém estava disposto a viver. Todos queriam vir e impor; ninguém estava disposto a vir, viver e receber. Todos queriam formar obreiros, ninguém queria ser formado como obreiro. Todos queriam vir correndo e voltar; ninguém estava disposto a vir e permanecer. Cada um tinha uma visão diferente para a igreja peruana, mesmo sem ter conhecido de perto este campo missionário. Todos tinham receitas exatas para fortalecer o ministério local, mas ninguém queria servir no ministério. Muitos reis, nenhum servo. Como diria o pastor Kolenda, de saudosa memória, simplesmente “muito cacique para pouco índio”.

UMA IGREJA SECULARIZADA QUE NÃO AMA MISSOES

Não posso dizer exatamente onde foi que a igreja errou (não se preocupem, deve ter algum conferencista de vinte anos capaz de decifrar este mistério!). Porém, mesmo sem saber exatamente, acredito que alguns fatores são visíveis e fáceis de discernir: economia estável, bons empregos, oportunidade de fazer duas, três, quatro faculdades, anos de pregação antropocêntrica que exclui o sacrifício como parte da experiência cristã, tudo isso contribuiu para uma horrível secularização da igreja. Se eu fosse dispensacionalista, não teria dificuldade em aceitar que a igreja está vivendo a “Era de Laodicéia”. A igreja de Laodiceia e a igreja brasileira são irmãs: As duas são ricas materialmente, ensimesmadas, autossuficientes. As duas estão corroídas pelo pecado, empobrecidas de galardão e cegas quanto a sua real situação.  Se há algumas décadas dizia-se que o Brasil era um celeiro de missões, hoje tenho certeza que este título deve pertencer a algum outro país: China, Índia, Coreia do Sul, talvez... Mas definitivamente, esse título já não se pode aplicar ao Brasil.

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Leonardo Gonçalves é missionario há 11 anos. Neste período ajudou a plantar e consolidar igrejas no Brasil, Argentina (Patagonia e provincia de missiones), e no norte de Peru. Desde 2008 vive na cidade de Piura, envolvendo-se na plantação de 7 igrejas autóctones. O Projeto Piura sustenta hoje 6 obreiros autoctones e ajuda a 60 crianças provindas de comunidades carentes do Peru.

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NOTAS:

1. O Movimento Ano 2000 (AD 2000) surgiu de uma reunião em janeiro de 1989, em Singapura, onde foi realiazada uma Consulta Global de Evangelização Mundial para o ano 2000 e Além. Esta consulta deu origem ao movimento denominado AD 2000, cujo enfoque eram os povos não alcançados da chamada ‘janela 10/40’.
2. A Década da Colheita foi o resultado de um encontro de líderes das Assembleias de realizado nos Estados Unidos, em 1988. Foram também estabelecidas metas bem claras para a AD no Brasil, para serem alcançadas até o ano 2000: (1) Levantar um exército de três milhões de intercessores; (2) Ganhar 50 milhões de almas para Cristo; (3) Preparar 100 mil obreiros dispostos a trabalhar na seara do Mestre. (4) Estabelecer 50 mil novas igrejas em todo o Brasil; e (5) Enviar novos missionários para outras nações.
3. Não é que eu me oponha totalmente a Missão Integral. Minha crítica a este movimento pode ser resumida em poucos pontos: (1) A terminologia Missão Integral é, por si, uma redundância. Se é missão cristã, deve ser integral, e se não for integral (no sentido de total), não é missão. (2) Os promotores da Missão Integral no Brasil parecem se inspirar mais no marxismo do que na Bíblia. Um dos líderes desse movimento chega a apresentar o comunismo como uma ideia bíblica de comunidade. Ora, confundir comunidade cristã com uma ideologia que foi responsável por milhões de mortes no mundo, incluindo muitos cristãos, é uma boçalidade. (3) O discurso da Missão Integral tem servido de plataforma política para ideias esquerdistas, e sua super-ênfase no social tem levado alguns a pregar um conceito que beira a salvação pelas obras, algo abominável do ponto de vista bíblico. (4) Nunca vi um leprosário criado ou mantido por adeptos da Missão Integral.  

quarta-feira, 12 de março de 2014

BATALHAR PELA FÉ


por Morgana Mendonça dos Santos

"Amados, enquanto me empenhava para vos escrever acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever exortando-vos a batalhar pela fé entregue aos santos de uma vez por todas" Judas 1.3

Orígenes, um pai da igreja, acerca do livro de Judas disse: "é um livro pequeno, mas cheio de um vigoroso vocabulário". Um livro muito esquecido pela maioria, vinte e cinco versículos, recheados de ensinamentos com um potente vigor apologético. Judas motiva seus leitores a pelejar, lutar pela fé. Nos trazendo a memória que antigamente e que também hoje precisamos defender a fé, que foi recomendada entre o povo do Senhor. Não podemos afirmar a data da carta, nem ao menos o público para qual foi escrito, existe uma certa semelhança com a carta de 2 Pedro (capítulo 2), porém podemos afirmar com toda a convicção que foi escrita para cristãos, para a igreja, o povo do Senhor. Percebemos, de forma categórica que Judas escrevendo para uma igreja ou para várias, tendo a intenção de ajudá-las a defender-se de um ataque específico ao evangelho: Falsos ensinos, um ataque que acontecia dentro da igreja. Notamos que na época de Judas as heresias, falsas doutrinas, ensinamentos errôneos tomavam um proporção no meio dos cristãos. A igreja estava sendo atacada! 

Percebemos no texto que a intenção de Judas (irmão de Tiago) ao escrever essa epístola, era encorajá-los à compartilhar a unidade que eles tinham em Cristo, no entanto, uma situação sobreveio, e como um alerta moveu-se a falar sobre a defesa da fé. Podemos afirmar que essa pequena carta nos motiva e nos encoraja com relação a apologética. É interessante notar também que alguém poderia dizer ou pensar que a apologética destina-se somente aos que estão do lado de fora da igreja de Jesus Cristo, em certo sentido sim, entre a igreja e o mundo. No entanto no verso 4 observamos Judas dizer: " se introduziram com dissimulação", estavam com o intuito de trazer dúvidas a fé santíssima (1.20), causando divisões, trazendo uma influência anticristã (1.19). Como Judas os descreve? Ele diz que: "Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Corá" (1.11). Ilustrações tiradas do Antigo Testamento, que ocorreram no contexto do povo do Senhor, seus leitores conheciam bem as Escrituras, inclusive os apócrifos (9,14). 

O propósito de Judas seria lembrar aos seus leitores que existem falsos cristãos dentro das congregações. Esses homens entraram no caminho de Caim, que motivado por uma ira no seu coração, matou seu próprio irmão. O nome de Balaão é mencionado, levado pela ganância (Nm 31.16). A referência a Corá é chocante, um sacerdote, porém rebelando-se contra a ordem e a estrutura divina firmada em Israel. Sua oposição contra a autoridade da Igreja no Antigo Testamento (Nm 16; 26). Porém, qual o propósito de Judas com esses exemplos?

Para os leitores dessa carta, era necessário entender que esses falsos mestres não somente distorciam o verdadeiro ensino como também sorrateiramente manipulavam em prol das suas causas. Como Caim, esses invasores desejavam, de acordo com Judas, inverter a direção da igreja, assassinar o ensino a partir de dentro da casa do Senhor. Como Balaão, esses falsos mestres estão preocupados somente com o seu ganho, interesses pessoais (1.12). A citação do nome Corá, vem para provar que esses pseudocristãos estão arraigados na mesma revolta, (oposição), disputas rebeldes que os falsos mestres também estavam envolvidos.

"O problema é que a igreja tem sido infiltrada por aqueles que se opõe ao evangelho. Eles vieram para dentro da igreja e vivem entre os cristãos" disse Scott Oliphint¹. A pergunta de Oliphint, será a nossa nesse texto: Como, então,deveriam os cristãos responder a essa situação nos dias atuais?

Judas no verso três nos garante a resposta pratica para tal situação, ele diz que devemos "batalhar pela fé". A palavra traduzida por batalhar não é usada em nenhum outro lugar do NT. Os cristãos precisavam se ver em um campo de guerra, precisavam entender o que significa batalhar pela fé. São como soldados, recrutados dentro de um exército, para glória do seu Comandante Supremo. Deveriam estar prontos, preparados para tudo que tinha relação com a Fé dada aos santos. Assim como vemos o apostolo Pedro orientando os cristãos:

"Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" 1Pedro 3.15

Vejamos mais atentamente as palavras inspiradas que Judas escreve no verso três:

"A batalhar pela fé (1) entregue aos santos de uma vez por todas (2)" (v.3)

Na visão de Judas, quando batalhamos por nossa fé não estamos travando combate por algo que temos e que poderíamos perder. Não é a fé dada a nós por Deus, essa na maioria das vezes é a referência ao dom de Deus (Ef 2.8). O cerne da questão em Judas é a fé como verdade das Escrituras, verdades que compõem o Evangelho. Batalhamos pelo Evangelho! Não faço menção de algo sobre o exercício pessoal de fé, a audiência de Judas deveria batalhar sobre o conteúdo da verdade da nossa crença, nossa declaração de fé.

"O credo cristão mais antigo de que temos ciência consistia da afirmação "Jesus é Senhor" (1Co 12.3). Não temos nenhum modo de saber no que, exatamente, consistia "a fé" quando Judas escreveu sua epístola. Mas não devemos subestimar a capacidade dos cristãos no primeiro século de articular sua fé”. ²

Judas menciona essa fé fazendo o complemento de que foi "uma vez por todas entregue aos santos". O que ele quer dizer com "uma vez por todas"? Significa completude, foi recebido de forma completa, não é mais necessário nenhuma outra revelação além da que Deus lhes dera. Nada poderia ser acrescentado ou subtraído da revelação que receberam da parte do Senhor (Dt 4.2; Ap 22.18-19). Além de ser uma vez por todas, foi "entregue". Isso nos traz a memória à fonte da fé que defendemos. É uma fé revelada e dada pelo próprio Deus. Ao defender o cristianismo, precisamos entender que a nossa defesa está baseada na revelação divina, nós a recebemos pela graça de Deus.

Fazendo uma rápida análise e comparação de 1Pe 3.15 e Judas 1.3, notamos que Pedro usa a palavra "santificar" e a palavra que Judas usa é "santos" derivada da mesma semântica. Poderíamos então pensar que essa "fé é entregue a todos aqueles que são separados, santificados. Judas escrevendo diz: que Deus concedeu essa fé, de uma vez por todas, ao corpo santificado de Cristo, àqueles que são separados como santos. Segundo Scott Oliphint: "Estar em Cristo é ser "declarado santo". Ser declarado santo é ter à fé. Ter fé traz consigo a responsabilidade de defesa e recomendação dela. A apologética é para todos os santos”. ³

Vivemos nos dias atuais um tempo difícil. Podemos pensar na igreja que recebeu a carta de Judas: poderia ser essa a nossa condição hoje? Como, então deveríamos responder a essa situação nos dias atuais? A principal forma de batalhar pela fé seria explicar e expor a realidade e verdade das Escrituras Sagradas. No tempo de Judas, os falsos mestres (12,13) estavam pervertendo a graça de Deus (v.4), os cristãos precisavam lutar e argumentar que essa graça que leva a imoralidade é oposta à fé, mostrando que a graça genuína é resultado de uma gratidão obediente, santidade e fidelidade a esse Evangelho. Somos de fato chamados por Judas a defender esse evangelho (fé), dentro e fora das nossas igrejas, porém isso precede conhecer as Escrituras. Essa fé que culminou em Jesus Cristo, uma fé que entende que a revelação de Deus está completa em Cristo.

Judas finaliza sua carta orientando os cristãos: "Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna." (20,21).Termino, com um trecho da canção do grupo Logos: “Glória, glória ao Autor da minha fé”!
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1- Scott Oliphint, A Batalha pertence ao Senhor, pág 68. 
2- Ibid, pág 75.
3- Ibid, pág 83.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Amor à vida (Novela) x Amor à vida (Cristo)


AMOR À VIDA (O TEMA DA VEZ)*

por Morgana Mendonça dos Santos

Nos últimos dias presenciamos no nosso país mais um fim de "novela", onde tive a chance de perceber o grande ibope que foi dado à mesma. Em meio ao próprio publico evangélico foi tema durante todos esses dias, comentários, compartilhamentos e curtidas em redes sociais. Muitos escandalizados com o fim da novela, pelo "beijo gay" dado por dois homens, isso muito me espanta. A grande questão é o protesto feito pelos próprios evangélicos, que ironicamente assistiram toda a trama e agora com a sua falsa espiritualidade se revoltam com a emissora e a direção da novela. Por conta do "beijo gay", esquecendo assim todo tipo de vinganças, luxúrias, intrigas, adultério, escárnio com o sagrado (ditos do famoso Félix), prostituição, inversão de valores.
Até parece que isso não é pecado diante de Deus! Hipocrisia!

No entanto, só basta um "Festival Promessas" para os mesmos esquecerem e voltarem a "idolatria gospel" outra vez. Não vou me demorar nessa linha de pensamento, sabemos o quanto essa "Globo" tem escravizado e enganado muitos em nosso meio, com a sua aparente proximidade com o meio evangélico. Você acha mesmo que a Globo tem se rendido a Cristo? A trama foi feita com o intuito de trazer o significado do que é realmente "amor à vida", como diz a canção tema da novela, cantada por Daniel, "vida, vida, vida...que seja do jeito que for...amar, amar..." Trazendo com isso, um conceito de que amar a vida é viver do "jeito" que for, é viver conforme os meus desejos e vontades, é viver segundo o que eu bem entender e querer. Será isso o verdadeiro significado de amor à vida?

Como poderíamos conceituar o amor, vemos uma descrição do apostolo Paulo sobre esse caminho excelente. "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade" I Co 14.4-6. O oposto do que é ensinado na mídia, nas novelas e nas redes sociais.

Lembro-me do apostolo João que disse: "Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida" I João 5.12. O próprio Jesus disse: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida" João 14.6. Vivemos uma verdadeira desconstrução do absoluto, vivemos um tempo onde tudo é relativo, os valores estão sido invertidos e os professores da nossa sociedade é a mídia que tem empurrado princípios contrários a verdade das Escrituras Sagradas. Amor à vida é Cristo, ter vida é Cristo, viver esse amor é viver Cristo! Esse amor de Cristo é a vida que temos n’Ele 1João 4.16. Igreja, voltem as Escrituras! Não é viver do jeito que for. Isso não é amor à vida! Não esqueça, o nosso freio é a Cruz, isso sim foi amor à vida!
"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" Is 5.20.

A Ele toda Glória, Rm 11.36.
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*Com o apoio Dayanne Duarte, que relatou a trama da novela citada.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Comentários sobre os 451 anos do catecismo de Hildeberg.

Bom, dia 19 de janeiro passou e hoje já é dia 20/01/2014, mas não podemos nunca deixar de lembrar, refletir e utilizar os documentos históricos criados pelas antigas igrejas nos dias da Reforma Protestante para o crescimento espiritual nos dias atuais. Por isso, a Miss. Morgana M. dos Santos criou um artigo referente a esse tema para nos lembrar o quão é importante e principalmente nos fazer refletir sobre a realidade do ensino bíblico presente nas igrejas, hoje. Vejamos:

Morgana M. dos Santos comenta sobre os 451 anos do Catecismo de Heidelberg:

Hoje, 19 de janeiro de 2014, o que vem na sua mente? Poderia ser algo como o Catecismo de Heidelberg!? Muitos poderiam ao ler essas palavras reconhecer o que acabo de escrever, mas a igreja reconhece o significado desse tesouro? Me questiono sobre ensinos bíblicos oferecidos hoje nas nossas igrejas. Me refiro a escola dominical, discipulado, estudos bíblicos... Fico a refletir se meus filhos (se isso estiver nos decretos, rsrs), a próxima geração saberá o que significa "escola dominical e discipulado".

Quando me reúno com meus amigos (seminaristas, ô raça) nossa conversa por muito tempo se refere na necessidade de ensinos dentro das nossas igrejas.A responsabilidade do ensino a crianças, jovens e adultos. O que dizer dos novos convertidos, que na verdade nem sabemos quem são. Nossos berçários, departamentos de crianças e adolescentes, sala de jovens, domingo após domingo... O que tem sido oferecido? Que tipo de ensino tem perpetuado e infiltrado na mente de uma turma que durante seis dias da semana tem sido bombardeada pela mídia, programas televisivos, internet e redes sociais, longas horas de "whatsap" e ligações que atravessam as madrugadas dentro de quartos trancados? O que fazem os professores e discipuladores, sua preparação e preocupação com o ensino das Escrituras, sua dedicação e grande desafio de em uma hora e meia ensinar princípios bíblicos, mandamentos e comportamentos cristãos?

Eu mesma sou um exemplo de grupos bíblicos com estudos feito de forma devocional, sem compromisso nenhum com a teologia bíblica, nem confissões e muito menos catecismos. Nesse período pensava eu que estava realmente aprendendo aquilo que o texto realmente estava a dizer. Mas você, caro leitor, pode está questionando se a igreja tem a responsabilidade de educar filhos, se isso não seria responsabilidade dos pais. Concordo! De fato essa é a responsabilidade dos pais (Dt 6.7,Pv 22.6), mas o que os pais receberam ou recebem como ensino comprometido com as Escrituras? Como poderão eles oferecerem aos filhos tal ensino?

De forma bem resumida, há exatamente 451 anos, o Catecismo de Heidelberg (segundo dos padrões doutrinários das Igrejas Reformadas) escrito em Heidelberg a pedido do Eleitor Frederico III (governador da mais influente província alemã, o Palatinado) piedoso príncipe cristão teve como inicio o comissionamento de dois homens Zacarias Ursinus e Gaspar Olevianus com o objetivo de preparar um catecismo para instruir jovens e guiar pastores e mestres. Com isso, foi publicado na Alemanha, adotado pelo sínodo, com o prefácio de Frederico III datado em 19 de janeiro de 1563. Logo cedo foi dividido em cinquenta e duas seções para que cada uma delas pudesse ser explicada às igrejas a cada domingo do ano. Assim sendo, no século XVI os Sínodos Nacionais o adotou como uma das Formas de Unidade. Traduzido em muitas línguas e de acordo com a fonte pesquisada* é o mais influente e o mais geralmente aceito dos diversos catecismos dos dias da Reforma.

Um assunto que nos deixa a flor da pele, porém precisamos rever e analisar o ensino que estamos oferecendo em nossos grupos, convido você leitor, a buscar esse tesouro, gastar tempo com o ensinamento apropriado das Escrituras. O objetivo era o ensino de jovens e a capacitação de pastores e mestres! Vejamos o tamanho da nossa responsabilidade, nos púlpitos e em pequenos grupos como verdadeiros ministros do Senhor! E para deixar você com vontade, vou transcrever a 52(seção) P.129. O que significa a palavra "Amém"?

R. Amém significa: é verdadeiro e certo. Pois é mais certo e verdadeiro que Deus ouviu a minha oração do que o sentimento que tenho em meu coração de desejar isso dEle. (Is 65.24; 2Co 1.20; 2Tm 2.13). Soli Deo Glória

* Editora: Os Puritanos. As três formas de unidade das Igrejas Reformadas, pág 49.

Fonte da imagem: www.culturamix.com

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Classificação de países por perseguição. Fonte: Portas Abertas.


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Com base em experiências de campo, anualmente, a Portas Abertas publica uma lista com os 50 países mais opressores ao cristianismo. Há três principais objetivos para esse levantamento: fazer dessa classificação um instrumento mais preciso de medição da extensão da perseguição aos cristãos hoje; determinar onde a necessidade é mais urgente e; assim, planejar melhor projetos e ações.

Perseguição é "toda e qualquer hostilidade vivenciada em qualquer lugar do mundo, como resultado da identificação de uma pessoa com Cristo. Isso inclui atitudes, palavras ou ações hostis contra os cristãos, partindo de fora do cristianismo ou em meio a ele". Ron Boyd-MacMillan

  • Países novos entraram na lista: Mali (7ª), Tanzânia (25ª), Quênia (40ª), Uganda(47ª) e o Níger (50ª).  
  • Como já citado, o Mali, na África, que não apareceu em classificações anteriores, já chega ocupando a 7ª colocação. Isso se deu porque, após um golpe militar de Estado em março de 2012, o país vive hoje um momento de tensões e mudanças políticas, o que reflete diretamente na perseguição à Igreja. O norte foi dominado por milícias islâmicas e, portanto, todas as igrejas dessa região foram destruídas e milhares de cristãos tiveram que fugir para o sul ou para países vizinhos. 

  • Há onze anos consecutivos, a Coreia do Norte figura em primeiro lugar noranking.
  • Iraque está agora no TOP 5 da lista. Pulou da 9ª para a 4ª posição no quadro geral. Desde 2003, quando a invasão liderada pelos EUA derrubou o regime de Saddam Hussein, os cristãos tem sido alvo constante de grupos radicais islâmicos que atuam no país. 
  • Síria subiu 25 posições, a Etiópia 23 e a Líbia 9, o que significa que a perseguição nesses países se intensificou.  
  • Nigéria se manteve no 13º lugar, mas a perseguição que antes era considerada somente no norte do país, agora se expandiu para todo o território. 
  • China desceu do 21º lugar para o 37º e o Egito do 15º para o 25º. Entenda, porém, que essas alterações nas posições não significam, necessariamente, uma melhora na perseguição religiosa na China e no Egito, especificamente. O que acontece é que, devido à mudança na forma de classificação dos países, em alguns lugares a perseguição religiosa é maior do que nessas nações, o que fez com que muitos países descessem no ranking sem que a hostilidade aos cristãos tenha diminuído de fato. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Porque é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1.16)
Um evangelho salvador

Nas Escrituras, lemos que a salvação é o fim, ou alvo, da fé.[1] O mesmo é verdade com respeito ao evangelho. Na avaliação de Paulo, o maior dom que o evangelho proporciona a um homem é a salvação de sua alma. Deus enviou seu Filho ao mundo para que o mundo fosse salvo através dele.[2] Através das eras, a salvação foi o glorioso tema da igreja e o assunto de seus maiores hinos. Santos do passado viam a salvação não como um dos inúmeros benefícios do evangelho a serem considerados, mas como o grande benefício, que quando recebido, tomava a vida de um crente de tal forma que ele não queria nada além disso. Salvação de si mesmo e do pecado, libertação da condenação e da ira, reconciliação com Deus e o conhecimento de Cristo são o suficiente!

Lamentavelmente, em décadas recentes, parece que a salvação perdeu algo de seu valor. Na opinião de muitos, a promessa da salvação não é uma motivação forte o suficiente para levar o pecador ao arrependimento ou o santo à verdadeira devoção, então precisamos adicionar muitas outras promessas para tornar o chamado do evangelho atrativo. Saúde e prosperidade, propósito e poder e conseguir o máximo dessa presente vida são as verdadeiras cartas do jogo do cristianismo contemporâneo. Na verdade, as próprias coisas que o púlpito promete e as pessoas nos bancos buscam são normalmente as próprias coisas que Jesus alertou que poderiam ser perdidas no decurso do verdadeiro discipulado.[3] De acordo com ele, um homem poderia ter que perder o mundo inteiro para ser salvo, e, ainda assim, ele considerava uma barganha conseguir a salvação a um custo tão pequeno.[4]

À luz do alto valor que a Escritura dá a salvação, por que esta promessa de salvação não mais impressiona por si só a alma moderna? Por que outras promessas mais terrenas precisam ser adicionadas para tornar o evangelho mais atraente para o homem contemporâneo? Primeiro, é porque os homens não compreendem sua condição deplorável. Assim como um homem rico não vê razão para se regozijar ao lhe ser dado um mero pedaço de pão até que uma reviravolta na vida lhe deixe pobre, assim o pecador não acha alegria na salvação até que seja revelada a horrível natureza de seu pecado e ele se veja como um desgraçado, miserável, pobre, cego e nu.[5] Segundo, é porque os homens não entendem a perigosa situação em que se encontram. Um homem estimará a salvação somente ao passo que ele entende algo dos terrores dos quais ele está sendo salvo. Uma clara visão do inferno e da ira de Deus dará ao homem uma apreciação mais apropriada da salvação oferecida através do evangelho. Terceiro, é porque os homens não entendem o custo infinito que foi pago para lhes assegurar a salvação. A redenção de uma alma é caríssima e além do que um homem possa pagar.[6] Somente Deus possui o valor a ser pago, e ele o pagou por completo através do precioso sangue do seu próprio Filho.[7] Pecadores que permanecem sem serem informados sobre a dignidade de Cristo tem pouca esperança de apreciar o que ele fez por eles no evangelho. Quarto, é porque os homens não regenerados são sempre assim. Cegos não encontram nenhuma beleza em um pôr do sol, surdos não são tocados nem pela mais bela sonata, e bestas selvagens não apreciam a arte. De forma similar, homens carnais, não regenerados e não convertidos são espiritualmente cegos e surdos à Palavra de Deus e servos de um coração bestial que prefere se alimentar de seu desejo animal do que provar e ver que o Senhor é bom.[8] Por essa razão, Jesus exclamou que a menos que um homem nasça de novo ele não pode “ver” o reino dos céus, quanto mais estimar seu valor.[9] Por essa razão, pessoas carnais enchem a lista de nossas igrejas – pessoas que frequentam por toda sorte de motivos, menos Cristo e uma fome por justiça.[10] As promessas mais práticas e momentâneas que foram adicionadas ao evangelho tornam-no mais atraente para eles, e eles continuam na igreja enquanto recebem o que querem. Isso alimenta suas carnes de uma forma religiosa, mas suas almas continuam mortas para Deus e para a esperança de verdadeira salvação.

[1] 1 Pedro 1.9
[2] João 3.17
[3] Mateus 16.24-26
[4] Marcos 8.36-37
[5] Apocalipse 3.17
[6] Salmos 49.8
[7] 1 Pedro 1.18-19
[8] Salmo 34.8
[9] João 3.3
[10] Mateus 5.6

Extraído do livro 8º capítulo do livro “O Poder e a Mensagem do Evangelho” de Paul Washer, a ser lançado pela Editora Fiel. Tivemos a oportunidade de traduzi-lo e o privilégio de poder compartilhar pequenos trechos de cada capítulo com vocês.
Tradução: Vinícius Musselman Pimentel. Versão não revisada ou editada. Postado com permissão.
© Editora Fiel. Todos os direitos reservados. Original: Um Evangelho Escandaloso (Paul Washer) [7/26]

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

5 Solas - Devocionais pessoal prático

Sola Scriptura

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreen- são, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” II Timóteo 3:16,17

Somente por meio das Escrituras - a revelação tanto da Pessoa quanto da vontade de Deus - o homem pode conhecê-Lo, ser salvo e habilitado para a boa obra do Senhor. Entretanto, cresce em nossos dias uma visão da irrelevância das Escrituras onde ela não é mais a autoridade final em questões espirituais entre o Homem e Deus, mas apenas uma dentre muitas fontes de autoridade a respeito de Deus e a prática cristã.
Somente nas Escritura, e unicamente nela, aqueles que almejam serem usados pelo Senhor devem se apoiar. As Escrituras como Palavra de Deus (“Toda a Escritura é inspirada por Deus”) constituem-se como o único meio proveitoso (“e útil”) pelo qual analisamos se devemos crer em algo como sã doutrina (“para o ensino”) ou rejeitá-lo (“para a repreensão”).

Somente pela Escritura, e unicamente por ela, temos o padrão de prática, pois ela é útil “para a correção”, ou seja, ela revela qual é o comportamento e proceder errado - o que nós não devemos fazer - mas também aponta “para a instrução na justiça”, para a prática correta que devemos cultivar e crescer.

Somente a Escritura, e unicamente ela, é o meio pelo qual Deus apontou como instrumento de capacitação e habilitação para todo o servo e serva de Deus, “afim de que todo homem”, tenha a provisão necessária (“seja perfeito”), e o treinamento necessário (“perfeitamente habilitado”), para o santo trabalho do Senhor (“para toda boa obra”).

Auto-exame:
1) Para entender os atributos de Deus você recorre a Bíblia ou ao senso comum de sua geração? Exemplo: Quando a Bíblia diz que Deus é amor, você simplesmente assume que isso significa que Deus ama a todos igualmente ou confere para ver se e como isso é atestado no resto da Escritura?

2) Você consegue dar base bíblica para os elementos praticados no culto que você participa?

3) Um dos problemas dos fariseus é que eles colocavam cargas extras sobre as pessoas que as próprias Escrituras não colocavam. Quando você diz para alguém que algo é errado (quer seja homicídio ou ingestão de bebida alcoólica), você está clara- mente se baseando nas Escrituras e mostrando isso para a pessoa?

4) Em sua busca por santificação, a Bíblia tem tomado um lugar de destaque? Você tem resistido à tentação com suas próprias forças ou usando a Palavra de Deus, assim como Jesus?

Fonte: www.voltemosaoevangelho.com 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma Lição de Spurgeon Acerca do Evangelismo

Regenerar homens para Deus é uma meta honrada dos ministros de Cristo..

É praticamente impossível encontrar um sermão impresso de Spurgeon que não contenha algum tipo de apelo ao não-convertido. Eles estão cheios de alegações, argumentos, alertas e instruções aos pecadores, chamando-os e convidando-os a virem a Cristo. A própria atitude de Spurgeon é refletida no retrato de João Bunyan de um verdadeiro ministro do evangelho, em O Peregrino. Em seu primeiro sermão, na igreja de New Park Street, ele utilizou essa cena para descrever como o ministro do evangelho deve considerar as almas de homens e mulheres:
João Bunyan fornece-nos um retrato de um homem a quem Deus tencionou tornar um guia para os céus; vocês já observaram como esse quadro é bonito? Esse homem tem uma coroa da vida sobre sua cabeça, a terra encontra-se debaixo de seus pés, está de pé como se implorasse aos homens e com o melhor dos Livros em suas mãos. Oh! Como eu gostaria, por um só momento, ser esse tipo de pregador; que pudesse arrazoar com os homens, assim como João Bunyan descreve. Todos somos embaixadores de Cristo e, nesta qualidade, devemos suplicar aos homens, como se Deus lhes falasse por nosso intermédio. Como eu gosto de ver um pregador que chega às lágrimas! Como gosto de ver um homem que é capaz de chorar por causa dos pecadores, um homem cuja alma anela pelos ímpios, como se ele pudesse, de alguma forma, trazê-los ao Senhor Jesus Cristo! Não consigo compreender um homem que sobe ao púlpito e apresenta um discurso frio e indiferente, como se não tivesse interesse pela alma de seus ouvintes. Creio que o verdadeiro ministro do evangelho é aquele que tem um real anseio pelas almas, demonstrado em uma atitude semelhante à de Raquel, quando clamou: Dá-me filhos, senão morrerei.. Esse ministro também clamará a Deus, para que veja os eleitos do Senhor nascerem e serem trazidos para Deus. E, conforme penso, todo o verdadeiro crente deve ser extremamente zeloso na oração em favor das almas dos ímpios; e quando fazem isto, Deus os abençoa abundantemente e a igreja prospera! Porém, amados, mesmo vendo almas condenadas, quão poucos se importam com elas! Os pecadores podem afundar no lamaçal da perdição; entretanto, poucas lágrimas são derramadas por eles! O mundo inteiro pode ser levado por uma torrente ao precipício de condenação, e, apesar disso, quão poucos realmente clamam a Deus em favor dessas pessoas! Quão poucos homens dizem: Oh! Que a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos, em fonte de lágrimas! Então, choraria de dia e de noite os mortos da filha do meu povo! Não lamentamos diante de Deus pela perda da alma dos homens, como seria próprio aos cristãos fazerem.

Spurgeon argumentou que não apenas certos tipos de pregadores podem ser ganhadores de almas. Na verdade, todo o pregador deveria labutar seriamente para ver seus ouvintes salvos.

A menos que conversões sejam constantemente vistas, em todas as nossas congregações um clamor amargo deveria ser levantado a Deus. Se nossa pregação jamais salva uma alma (e isto não é comum acontecer) não deveríamos glorificar a Deus melhor como lavradores ou comerciantes? Que honra pode o Senhor receber de pregadores inúteis? O Espírito Santo não está conosco, nem estamos sendo usados por Deus, para os seus gloriosos propósitos, a menos que almas estejam sendo despertadas para vida eterna. Irmãos, será que podemos suportar o sermos inúteis? Podemos ser estéreis e, ainda assim, estar contentes?.

Para Spurgeon, essa paixão era inextinguível. Ele viu, de forma bastante exata, que a glória de Deus estava em jogo.

Novamente, se tivermos de ser revestidos do poder do Senhor, precisamos sentir um intenso anelo pela glória de Deus, e pela salvação dos filhos dos homens. Mesmo quando somos os mais bem-sucedidos, precisamos anelar por mais êxito. Se Deus tem nos dado muitas almas, precisamos ansiar por milhares de vezes o que temos. A satisfação com os resultados será a morte lenta do progresso. Não é bom para o homem pensar que não pode melhorar. Ele não possui santidade, se acha que já é útil o suficiente.. Essa paixão ardente inevitavelmente determinará como um homem prega. Por um lado, ela o levará a empenhar-se para ser claro em seu discurso. Devemos dizer a nós mesmos: Não, eu não posso usar esta palavra difícil, pois aquela pobre senhora que senta naquele lugar não me compreenderia. Não posso salientar aquela dificuldade obscura, pois aquela pobre alma poderá ser confundida por tal dificuldade e não aliviada por minha explanação.... Se você ama os seres humanos, você amará menos as palavras difíceis..

O objetivo de ver almas ganhas para Cristo através da pregação também levará o pregador a labutar para ser interessante. .Como, em nome da razão, podem almas se converter por meio de sermões que embalam as pessoas a dormir?. É por esse motivo que o humor pode ter um papel legítimo na pregação. Spurgeon ponderou que é .crime menos grave causar uma risada momentânea do que um sono profundo de meia hora..

Ele é tão enfático nisto, que é fácil compreendê-lo de maneira errônea. Spurgeon não estava argumentando que o pregador é responsável pelo sucesso evangelístico de seu ministério; é responsável pela fidelidade à tarefa de evangelizar. Deus, em sua soberania, salvará aqueles que Ele quiser, quando e onde quiser. Spurgeon jamais duvidou disso. Todavia, ele se recusou a nos permitir esquecer que no âmago de um ministério fiel reside uma profunda paixão pelas almas de homens e mulheres. Ele disse: Se os pecadores serão condenados, que pelo menos pulem para o inferno passando por cima de nossos corpos. Se perecerem, que pereçam com nossos braços e mãos tocando os seus joelhos, implorando que fiquem. Se o inferno tiver de ser cheio, pelo menos que seja cheio apesar de nossos esforços, e que ninguém entre ali sem estar avisado e sem que se tenha intercedido por essa pessoa..

Se nossa doutrina não conduz à devoção, alguma coisa está tremendamente errada. Não terminaremos nossa tarefa até que a cabeça, o coração e as mãos concordem. Tal integração santificada de nossa personalidade não será alcançada até que vejamos o Senhor face a face. Mas temos de nos esforçar para alcançar esse objetivo, aqui e agora. Tendo recebido o evangelho, precisamos estar engajados no evangelismo. E, quanto mais claramente tivermos assimilado o evangelho, tanto mais apaixonados haveremos de nos entregar à evangelização.

- Tom Ascol.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

McDonaldização do Evangelho

As igrejas evangélicas buscando uma concepção aceitável de evangelismo fez com que, ao longo dos anos, fosse assimilando a ideia de repassar (anunciar) Cristo de forma rápida e padronizada. Focalizando a motivação existencial em números. Avaliando o fruto pela quantidade, não pela qualidade. Instigando uma guerra onde não há vencedores.
O cristianismo pós-moderno coloca Deus dentro de um molde humano, consequentemente se limita e boicota a Verdade contida no Evangelho. Infelizmente, tem havido uma banalização do poder de Deus, contribuindo substancialmente para que haja crentes "fantoches", resultado da Mcdonaldização do evangelismo.
A igreja se tornou uma grande lanchonete do Mcdonald's. Moderna na estrutura física, atrativa no marketing, rápida na produção e padronizada no mundo. Partindo dessa linha de pensamento, cada crente se torna um Big Mac que será tragado por consumidores (líderes eclesiásticos), que de igual modo são seres padronizados.
A vida proporciona circunstancias que culminam em necessidades especificas a cada ser humano. Todavia, a padronização eclesiástica influenciada pela Mcdonaldização do evangelismo prega o oposto. Às vezes parece que há uma fôrma onde se coloca a pessoa evangelizada para eliminar as virtudes e qualidades distinguíveis a cada individuo.
Cada pessoa é individual e não pode ser tratada como uma mera linha de produção de sanduíches. O cristão Mcdonaldizado é aquele que vive simplesmente para ser o que todos outros já foram. Apenas mais uma cópia da igualdade inquestionavelmente discrepante.
O mundo tem feito dos seres humanos doutores em ativismo e mestres em imediatismo. Infelizmente, a igreja protestante assimilou esse ensino com bastante ênfase. Trabalha-se exaustivamente na obra de Deus, mas não se tem tempo para o próprio Deus. Traça-se um evangelismo relâmpago, com resultados rápidos, produzindo conversões momentaneas. O cristão Mcdonaldizado no ativismo e no imediatismo é aquele que faz de tudo, porém não chega a lugar algum.
O estilo de evangelismo que se faz determina a maneira de ser da igreja. Com certeza isso explica o porque de tanta rejeição eclesiastica, pois os cristãos assimilaram com maior eficacia a estrategia de crescimento do Mcdonald's do que a simplicidade de se espelhar em Jesus Cristo.
Que Deus nos ajude.
Vinicius Seabra. Professor das áreas de teologia e administração; diretor do Seminário Evangelico de Teologia da America Latina; presidente da Missão Tocando as Nações e pastor da Comunidade da Fé - Igreja Cristã em Goiâna, Góias, Brasil.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Reforma e Missões

A Presença da Igreja como agente de expansão da Palavra pregada.

A Reforma Protestante desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 foi sobretudo eclesiástica em um momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus. 

 A Missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto por um motivo óbvio: os reformadores como Lutero, Calvino e Zuínglio possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e assim todos os escritos foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem uma preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a obra missionária por alguns motivos:

a) A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus (submetendo o próprio sacerdócio a este crivo bíblico) e foi justamente esta ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas fomentando posteriormente movimentos como a Wycliffe Bible Translators, com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João Calvino enfatizava que “... onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza... não há dúvida de que existe uma Igreja de Deus ”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente dos ensinos reformados.

b) A Reforma reavivou o culto onde todos os salvos, e não apenas o sacerdote, louvavam e buscavam a Deus. E Lutero em uma de suas primeiras atitudes colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós reforma o pensamento multiétnico onde “o desejo de levar o culto a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada holandesa no século XVII. Tal fato disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.

c) A Reforma trouxe a Glória de Deus como motivo de vida da Igreja e isto definiu o curso de todo o movimento missionário pós reforma onde o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam isto quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, responde: “estou indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox na segunda metade do século XVI escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. O centro das atenções portanto era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.

Mas, sobretudo, a Reforma Protestante submeteu a Igreja ao crivo da Palavra e isto revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço desta eclesiologia reformada poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra. Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos em janeiro de 1519, afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência ”.

Seguindo esta ênfase eclesiológica sob cunho escriturístico vemos que Ekklesia, Igreja, é um termo composto que pode ser dividido em "Ek" (para fora de) e "Klesia", que vem de "Kaleo” (chamar). Etimologicamente pode, portanto, ser entendida como "chamada para fora de" o que a principio nos dá uma ideia mais real desta comunidade dos santos que entra em um templo mas precisa postar seus olhos além muros. Obviamente o termo também está ligado a "agrupamento de indivíduos" e de certa forma a "instituição" porém, em todo o N.T. adquire o conceito de "comunidade dos santos" e fora MT. 16:18 e 18:17 está ausente dos evangelhos aparecendo, porém, 23 vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o Novo Testamento. Gostaria que déssemos atenção neste momento a alguns conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de Deus que foram demoradamente estudados pelos reformadores e impulsionam a Igreja hoje para uma obra missionária baseada na Sola Scriptura e para a glória de Deus.

1. Igreja de Deus
Comumente encontramos no N.T. a expressão "Igreja de Deus” ("Ekklesia tou Theou") o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão nutrida por um grupo de loucos há 20 séculos, antes foi articulada por Deus, formada por Deus, é pertencente a Deus e permanece ligada a Deus. Independente das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus.

Desta forma a “Ekklesia tou Theou” necessita caminhar de acordo com o palpitar do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos profundos deste coração. É baseados nesta verdade que necessitamos renovar nosso compromisso com a eclesiologia bíblica – um grupo de santos chamado por Deus para a inusitada tarefa de transtornarem o mundo com o evangelho de Cristo.

2. Igreja local
Também no N.T. encontramos o conceito de "igreja local". Em 1o Co 1:12 vemos, por exemplo, a expressão "Igreja de Deus que está em Corinto", onde "que está" (“te ouse”) indica a localidade da igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja, e não que a Igreja pertence à Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2.000 anos a Igreja adquiriu uma forte tendência de se "localizar" condicionando-se tão fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma "demarcação" geográfica da responsabilidade da Igreja impedindo trabalhos fora da sua "jurisdição".

Num conceito neotestamentário "Igreja" é uma comunidade sem fronteiras e, portanto, creio que há necessidade de sacramentalizarmos mais os santos e menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico, é a respiração da Igreja. Lembro que na tribo Konkomba no oeste africano há uma expressão que diz: “respiração é vida – não é preciso pensar para respirar; não é preciso pensar para viver”.

3. Igreja humana
Também dentro do conceito de "Igreja" nos deparamos no N.T. com um perfil bastante humano. Em 1 Ts 1.1 por exemplo vemos "igreja de Tessalônica" ("ekklesia Thesalonikeon") dando-nos a ideia daqueles que são Igreja também sendo Tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.

Mostra-nos o fato de que por serem "Igreja" não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. "Igreja" no N.T. não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano fazendo-nos entender que esta Igreja não foi separada do mundo e sim purificada dentro dele. Mostra-nos também que na obra missionária não há super homens mas sim gente como a gente tendo o privilégio de espalhar o Evangelho de Cristo além fronteiras.

No livro de Atos, a humanidade passo a passo era chocada com a fé daqueles que "transtornavam o mundo", onde o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo sem muita estrutura humana, possuíam como finalidade de vida apenas testemunhar do seu Mestre. Era uma Igreja visionária formada por gente limitada como nós.

Entretanto, quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no contexto embrionário do Novo Testamento a pergunta que salta aos olhos é: qual deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra missionária mundial fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra? Nesta expectativa olhamos para Paulo o qual, como missiólogo, expôs aos Romanos a nossa real motivação bíblica e reformada.

Para isto é preciso reler Romanos 16:25-27 quando o apóstolo, encerrando esta carta de grande profundidade missiológica, diz:

"Ora, àquele que é poderoso para
vos confirmar segundo o meu evangelho “
(fala de Deus)

"conforme a revelação do mistério "
(o mistério é o Messias prometido a todos os povos)

"e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas"
(este é o meio de Revelação)

"segundo o mandamento do Deus eterno"
(este é o meio de Eleição)

"para a obediência por fé "
(este é o meio de Salvação)

"entre todas as nações "
(Isto é Missões – a extensão do plano salvífico de Deus)

Mas qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele responde no verso 27: "Ao Deus único e sábio seja dada glória ...”

É a glória de Deus. Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da criança caída na esquina da nossa rua.

Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513 baseado no Salmo 91 afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua Igreja na terra. E quando colocarmos as mãos no arado, sem olhar para trás, nos lembremos: a razão da nossa existência é a glória do Deus. Pois Deus é maior do que nós.