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quarta-feira, 12 de março de 2014

BATALHAR PELA FÉ


por Morgana Mendonça dos Santos

"Amados, enquanto me empenhava para vos escrever acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever exortando-vos a batalhar pela fé entregue aos santos de uma vez por todas" Judas 1.3

Orígenes, um pai da igreja, acerca do livro de Judas disse: "é um livro pequeno, mas cheio de um vigoroso vocabulário". Um livro muito esquecido pela maioria, vinte e cinco versículos, recheados de ensinamentos com um potente vigor apologético. Judas motiva seus leitores a pelejar, lutar pela fé. Nos trazendo a memória que antigamente e que também hoje precisamos defender a fé, que foi recomendada entre o povo do Senhor. Não podemos afirmar a data da carta, nem ao menos o público para qual foi escrito, existe uma certa semelhança com a carta de 2 Pedro (capítulo 2), porém podemos afirmar com toda a convicção que foi escrita para cristãos, para a igreja, o povo do Senhor. Percebemos, de forma categórica que Judas escrevendo para uma igreja ou para várias, tendo a intenção de ajudá-las a defender-se de um ataque específico ao evangelho: Falsos ensinos, um ataque que acontecia dentro da igreja. Notamos que na época de Judas as heresias, falsas doutrinas, ensinamentos errôneos tomavam um proporção no meio dos cristãos. A igreja estava sendo atacada! 

Percebemos no texto que a intenção de Judas (irmão de Tiago) ao escrever essa epístola, era encorajá-los à compartilhar a unidade que eles tinham em Cristo, no entanto, uma situação sobreveio, e como um alerta moveu-se a falar sobre a defesa da fé. Podemos afirmar que essa pequena carta nos motiva e nos encoraja com relação a apologética. É interessante notar também que alguém poderia dizer ou pensar que a apologética destina-se somente aos que estão do lado de fora da igreja de Jesus Cristo, em certo sentido sim, entre a igreja e o mundo. No entanto no verso 4 observamos Judas dizer: " se introduziram com dissimulação", estavam com o intuito de trazer dúvidas a fé santíssima (1.20), causando divisões, trazendo uma influência anticristã (1.19). Como Judas os descreve? Ele diz que: "Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Corá" (1.11). Ilustrações tiradas do Antigo Testamento, que ocorreram no contexto do povo do Senhor, seus leitores conheciam bem as Escrituras, inclusive os apócrifos (9,14). 

O propósito de Judas seria lembrar aos seus leitores que existem falsos cristãos dentro das congregações. Esses homens entraram no caminho de Caim, que motivado por uma ira no seu coração, matou seu próprio irmão. O nome de Balaão é mencionado, levado pela ganância (Nm 31.16). A referência a Corá é chocante, um sacerdote, porém rebelando-se contra a ordem e a estrutura divina firmada em Israel. Sua oposição contra a autoridade da Igreja no Antigo Testamento (Nm 16; 26). Porém, qual o propósito de Judas com esses exemplos?

Para os leitores dessa carta, era necessário entender que esses falsos mestres não somente distorciam o verdadeiro ensino como também sorrateiramente manipulavam em prol das suas causas. Como Caim, esses invasores desejavam, de acordo com Judas, inverter a direção da igreja, assassinar o ensino a partir de dentro da casa do Senhor. Como Balaão, esses falsos mestres estão preocupados somente com o seu ganho, interesses pessoais (1.12). A citação do nome Corá, vem para provar que esses pseudocristãos estão arraigados na mesma revolta, (oposição), disputas rebeldes que os falsos mestres também estavam envolvidos.

"O problema é que a igreja tem sido infiltrada por aqueles que se opõe ao evangelho. Eles vieram para dentro da igreja e vivem entre os cristãos" disse Scott Oliphint¹. A pergunta de Oliphint, será a nossa nesse texto: Como, então,deveriam os cristãos responder a essa situação nos dias atuais?

Judas no verso três nos garante a resposta pratica para tal situação, ele diz que devemos "batalhar pela fé". A palavra traduzida por batalhar não é usada em nenhum outro lugar do NT. Os cristãos precisavam se ver em um campo de guerra, precisavam entender o que significa batalhar pela fé. São como soldados, recrutados dentro de um exército, para glória do seu Comandante Supremo. Deveriam estar prontos, preparados para tudo que tinha relação com a Fé dada aos santos. Assim como vemos o apostolo Pedro orientando os cristãos:

"Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" 1Pedro 3.15

Vejamos mais atentamente as palavras inspiradas que Judas escreve no verso três:

"A batalhar pela fé (1) entregue aos santos de uma vez por todas (2)" (v.3)

Na visão de Judas, quando batalhamos por nossa fé não estamos travando combate por algo que temos e que poderíamos perder. Não é a fé dada a nós por Deus, essa na maioria das vezes é a referência ao dom de Deus (Ef 2.8). O cerne da questão em Judas é a fé como verdade das Escrituras, verdades que compõem o Evangelho. Batalhamos pelo Evangelho! Não faço menção de algo sobre o exercício pessoal de fé, a audiência de Judas deveria batalhar sobre o conteúdo da verdade da nossa crença, nossa declaração de fé.

"O credo cristão mais antigo de que temos ciência consistia da afirmação "Jesus é Senhor" (1Co 12.3). Não temos nenhum modo de saber no que, exatamente, consistia "a fé" quando Judas escreveu sua epístola. Mas não devemos subestimar a capacidade dos cristãos no primeiro século de articular sua fé”. ²

Judas menciona essa fé fazendo o complemento de que foi "uma vez por todas entregue aos santos". O que ele quer dizer com "uma vez por todas"? Significa completude, foi recebido de forma completa, não é mais necessário nenhuma outra revelação além da que Deus lhes dera. Nada poderia ser acrescentado ou subtraído da revelação que receberam da parte do Senhor (Dt 4.2; Ap 22.18-19). Além de ser uma vez por todas, foi "entregue". Isso nos traz a memória à fonte da fé que defendemos. É uma fé revelada e dada pelo próprio Deus. Ao defender o cristianismo, precisamos entender que a nossa defesa está baseada na revelação divina, nós a recebemos pela graça de Deus.

Fazendo uma rápida análise e comparação de 1Pe 3.15 e Judas 1.3, notamos que Pedro usa a palavra "santificar" e a palavra que Judas usa é "santos" derivada da mesma semântica. Poderíamos então pensar que essa "fé é entregue a todos aqueles que são separados, santificados. Judas escrevendo diz: que Deus concedeu essa fé, de uma vez por todas, ao corpo santificado de Cristo, àqueles que são separados como santos. Segundo Scott Oliphint: "Estar em Cristo é ser "declarado santo". Ser declarado santo é ter à fé. Ter fé traz consigo a responsabilidade de defesa e recomendação dela. A apologética é para todos os santos”. ³

Vivemos nos dias atuais um tempo difícil. Podemos pensar na igreja que recebeu a carta de Judas: poderia ser essa a nossa condição hoje? Como, então deveríamos responder a essa situação nos dias atuais? A principal forma de batalhar pela fé seria explicar e expor a realidade e verdade das Escrituras Sagradas. No tempo de Judas, os falsos mestres (12,13) estavam pervertendo a graça de Deus (v.4), os cristãos precisavam lutar e argumentar que essa graça que leva a imoralidade é oposta à fé, mostrando que a graça genuína é resultado de uma gratidão obediente, santidade e fidelidade a esse Evangelho. Somos de fato chamados por Judas a defender esse evangelho (fé), dentro e fora das nossas igrejas, porém isso precede conhecer as Escrituras. Essa fé que culminou em Jesus Cristo, uma fé que entende que a revelação de Deus está completa em Cristo.

Judas finaliza sua carta orientando os cristãos: "Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna." (20,21).Termino, com um trecho da canção do grupo Logos: “Glória, glória ao Autor da minha fé”!
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1- Scott Oliphint, A Batalha pertence ao Senhor, pág 68. 
2- Ibid, pág 75.
3- Ibid, pág 83.


domingo, 9 de março de 2014

A CONTRAINDICAÇÃO


A CONTRAINDICAÇÃO

por Morgana Mendonça dos Santos


"Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém." 2Pe 3.18
O que temos recebido nos púlpitos domingo após domingo? Que tipo de mensagem temos saboreado? Que tipo de ensino tem cativado as nossas mentes e que tipo de edificação tem gerado em nós? A mensagem do Evangelho, as boas novas, tem sido pregada de forma expositiva e fiel? Cresçamos na graça e no conhecimento de Cristo Jesus.

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça" 2Tm 3.16

Lendo os puritanos identifico o alvo da mensagem do evangelho: a resposta a tantas heresias é nada mais e nada menos que o deslocamento da centralidade das Escrituras. Homens piedosos do século XVI e XVII, que estavam preocupados com uma vida pura de acordo com as doutrinas da graça soberana de Deus, desafiavam a igreja e mantinham seus olhos atentos na manutenção do ensino das Escrituras. Seus corações eram motivados na necessidade de desenvolver um padrão pessoal de piedade, conforme as prescrições bíblicas, que flui do correto entendimento da doutrina com a ênfase na conversão pessoal resultante do poder transformador do Espírito Santo. Sentiam a necessidade de uma vida eclesiástica baseada na Palavra, conforme as determinações da Palavra. O soberano Deus triúno é adorado.


É interessante notar esse pensamento puritano, onde tudo é direcionado as Escrituras Sagradas. O que temos hoje de mensagem do Evangelho está distorcido, está comprometido com o relativismo, com o pragmatismo. As experiências tem autoridade final acima das Escrituras, a verdade sendo suprimida por paixões ideológicas, entretenimento e modismo nos púlpitos. Os sermões estão baseados nas sensações, naquilo que vai atrair as multidões. Na verdade os fins estão justificando os meios, sermões temáticos que encontram público ávido por pão e peixe, multiplicar, consolidar... As pessoas estão correndo atrás dos bezerros de ouro ao invés do sermão da montanha baseado nos mandamentos do Senhor.


Para um pregador puritano o texto não estava no sermão, mas o sermão estava no texto. Alguém ao ouvir uma mensagem dessas poderia simplesmente dizer: "Ouvir um sermão, para mim, é como estar dentro da Bíblia". Não existe nos escritos ou sermões puritanos alguma referência pessoal ou qualquer história contada, significando a importância que eles davam ao púlpito não podendo ser degenerado com uma pregação egocêntrica. Podemos olhar para a história da igreja, para a histórias dos pais e reformadores e notar o valor e o temor que tinham para pregar a mensagem do Evangelho. A nossa tarefa deve ser semelhante à dos puritanos, eles oravam para que a exposição fiel das Escrituras ligada a ação do Espírito Santo e aplicada aos corações dos ouvintes produzissem um sincero arrependimento para salvação e crescimento mútuo na vida dos crentes.

Seriamos mais sábios e úteis se buscássemos mais as Escrituras como faziam os puritanos: 

"Ame a Palavra de Deus em suas devoções pessoais, busque a benção de pensar biblicamente, de falar biblicamente, viver biblicamente e perceberá que sua palavra contém uma autoridade divina" 

Joel R. Beeke.


Agora questione-se: que mensagem do Evangelho tem sido oferecido a você todos os domingos? Pedro e Paulo nos advertem ao crescimento do conhecimento e da graça. Isso só é oferecido pelas Escrituras Sagradas que tem autoridade final, divinamente inspirada, proveitosa e apta! Do mesmo jeito que existe na bula de um medicamento a contraindicação é importante descrever a nossa. Não é pecado "o exame de tudo que se ouve". Em atos 17.11 vemos os crentes de Beréia:


"Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim"

Se você é um crente genuíno, autêntico, arrependido em Cristo, é necessário a contraindicação em suspeita de mensagens que contêm heresias de perdição, falsos ensinos, dissoluções, blasfêmias, espíritos enganadores, doutrinas de demônios.


"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade" 2Pe 2.1-2


"Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência" 1Tm 4.1-2


"Oh! quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia" Sl 119.97

Sejamos profundamente bíblicos! A Deus toda a Glória, Rm 11.36.



RECUPERANDO O EVANGELHO


RECUPERANDO O EVANGELHO

Paul Washer



O evangelho de Jesus Cristo é o maior de todos os tesouros dados à igreja e ao cristão como indivíduo. Não é uma mensagem entre muitas, mas a mensagem acima de todas as outras. É o poder de Deus para a salvação e a maior revelação da multiforme sabedoria de Deus aos homens e aos anjos. É por essa razão que o apóstolo Paulo deu primazia ao evangelho em sua pregação, esforçando-se com tudo que tinha para proclamá-lo com clareza, pronunciando até mesmo uma maldição sobre todos que pervertessem sua verdade.


Cada geração de cristãos, pelo poder do Espírito Santo, é responsável pela mensagem do evangelho. Deus nos chama a guardar este tesouro que nos foi confiado. Se quisermos ser fiéis mordomos, teremos de estar absorvidos no estudo do evangelho, tomando grande cuidado para compreender as suas verdades, comprometendo-nos a guardar o seu conteúdo. Ao fazê-lo, garantimos nossa salvação, bem como a salvação daqueles que nos ouvem.
Como sabemos comumente, a palavra Evangelho vem do vocábulo grego euangélion, que é traduzida como “boas novas”. Num sentido, toda página da Escritura contém o evangelho, mas em outro sentido, ele se refere a uma mensagem muito específica — a salvação realizada para um povo caído, por meio da vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Conforme o bom prazer do Pai, o Filho eterno, que é um com o Pai e a exata representação de sua natureza, deixou voluntariamente a glória do céu, foi concebido pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem, e nasceu o homem-Deus: Jesus de Nazaré. Como homem, ele andou sobre a terra em perfeita obediência à lei de Deus. Na plenitude do tempo, os homens rejeitaram-no e o crucificaram. Sobre a cruz, ele carregou o pecado do homem, sofreu a ira de Deus, e morreu no lugar do homem. Ao terceiro dia, Deus o ressuscitou da morte. Esta ressurreição é a declaração divina de que o Pai aceitou a morte de seu Filho como sacrifício pelo pecado. Jesus pagou a penalidade pela desobediência do homem, satisfez as demandas da justiça e aplacou a ira de Deus. 

Quarenta dias após a ressurreição, o Filho de Deus ascendeu ao céu e se assentou à destra do Pai, e foi-lhe dada glória honra, e domínio sobre todas as coisas. Ali, na presença de Deus, ele representa seu povo e intercede junto a Deus em seu favor. Deus perdoará plenamente a todos quantos reconhecem seu estado de pecado e incapacidade, e se lançam sobre Cristo, sendo por ele declarados justos e reconciliados a ele. Este é o evangelho de Deus e de Jesus Cristo, seu Filho.

Um dos maiores crimes cometidos pela presente geração de cristãos é a negligência do evangelho, e é devido a essa negligência que nascem todos os nossos outros males. O mundo perdido não é tão endurecido quanto é ignorante do evangelho, porque muitos que proclamam sua mensagem também ignoram suas verdades mais básicas. Os temas essenciais que compõem o próprio cerne do evangelho — justiça de Deus, depravação total do homem, expiação pelo sangue, a natureza da verdadeira conversão, e a base bíblica para a segurança da salvação — estão demasiadamente ausentes dos púlpitos atuais. As igrejas reduzem a mensagem do evangelho a algumas declarações do credo, ensinam que a conversão é apenas uma decisão humana e pronunciam a segurança da salvação para qualquer um que tenha feito a “oração do pecador”. O resultado desse reducionismo evangélico tem sido de longo alcance. 

Primeiro, endurece ainda mais o coração dos não convertidos. Poucos “convertidos” dos dias modernos entram na comunhão da igreja, e os que o fazem, muitas vezes, se desviam ou têm as vidas marcadas pela carnalidade habitual. Milhões sem conta andam por nossas ruas e se assentam, não transformados pelo verdadeiro evangelho de Jesus Cristo. No entanto, estão convencidos de sua salvação, porque em dado momento de sua vida levantaram a mão em uma campanha evangelística ou repetiram uma oração aceitando Jesus. Esse falso senso de segurança cria uma grande barreira que, frequentemente, isola estes indivíduos de ouvir o verdadeiro evangelho.

Em segundo lugar, tal evangelho deforma a igreja, fazendo com que, em vez de ser um corpo espiritual de crentes regenerados, seja um ajuntamento de homens carnais, que professam conhecer a Deus, mas o negam por suas obras. Com a pregação do verdadeiro evangelho, os homens chegam à igreja, sem o entretenimento evangélico, atividades especiais ou promessas de benefícios além daqueles realmente oferecidos pelo evangelho. Aqueles que vêm o fazem porque desejam a Cristo e tem fome da verdade bíblica, adoração de coração e oportunidades de servir. Quando a igreja proclama um evangelho menor que isso, ela se enche de homens carnais, que compartilham pouco interesse pelas coisas de Deus. Manter tais pessoas é um fardo pesado para a igreja. A igreja então diminui o nível das demandas radicais do evangelho para uma moralidade conveniente, e a verdadeira dedicação a Cristo cede a atividades projetadas para suprir as necessidades sentidas pelos seus membros. A igreja torna-se dirigida por atividades ao invés de ser centrada em Cristo, e cuidadosamente filtra ou faz novo pacote da verdade, a fim de não ofender a maioria carnal. A igreja deixa de lado as grandes verdades da Escritura e do cristianismo ortodoxo, e o pragmatismo (ou seja, aquilo que mantém a igreja em movimento e crescimento) se torna a regra do dia.

Em terceiro lugar, um evangelho desse tipo reduz o evangelismo a pouco mais que um esforço humanista dirigido por estratégias de marketing sagazes, baseadas nas últimas tendências da cultura. Após anos testemunhando a impotência de um evangelho não bíblico, muitos evangélicos parecem convencidos de que ele não vai dar certo, e que o homem de alguma maneira tornou-se um ser complexo demais para ser salvo e transformado por mensagem tão simples e escandalosa. Hoje em dia há maior ênfase em entender nossa cultura decaída e seus modismos do que compreender e proclamar a única mensagem que tem o poder de salvá-la. Como resultado, o evangelho é constantemente reapresentado, de forma a caber na caixinha do que a cultura contemporânea considera mais relevante. Esquecemos que o verdadeiro evangelho sempre é relevante a toda cultura porque é a palavra eterna de Deus para todo homem.

Em quarto lugar, um evangelho assim traz repreensão ao nome de Deus. Uma proclamação diluída do evangelho faz com que os carnais e não convertidos entrem na comunhão da igreja, e pela negligência quase que total do que seja uma igreja bíblica, é permitido que eles permaneçam sem correção ou repreensão. Isso mancha a pureza e reputação da igreja e é blasfêmia ao nome de Deus entre os incrédulos. No final, Deus não é glorificado, a igreja não é edificada, os membros não convertidos na igreja não são salvos, e a igreja tem pouco ou nenhum testemunho ao mundo descrente.
Não fica bem a nós, ministros ou leigos, estarmos tão próximos, vendo “o glorioso evangelho de nosso bendito Deus” substituído por um evangelho de menor glória, e não fazermos nada sobre isso. Como mordomos desta verdade, temos o dever de recuperar o único evangelho verdadeiro e proclamá-lo com ousadia e clareza a todos. 

Faríamos bem em atender as palavras de Charles Haddon Spurgeon:
Nestes dias, sinto-me impelido a voltar repetidamente às verdades elementares do evangelho. Em tempos de paz, talvez sintamos liberdade de fazer excursões aos interessantes distritos da verdade que se encontram em campos distantes; mas agora precisamos manter-nos em casa, guardando os corações e lares da igreja, defendendo os primeiros princípios da fé. Na era presente, tem surgido na própria igreja, homens que falam coisas perversas. Há muitos que nos perturbam com suas filosofias e novas interpretações, com as quais negam as doutrinas que professam ensinar, solapando a fé que têm compromisso de manter. É bom que alguns de nós, que sabemos no que cremos, e não forjamos significados secretos para nossas palavras, simplesmente batamos o pé e nos recusemos a tanto, apresentando a palavra da vida, e declarando claramente as verdades fundamentais do evangelho de Jesus Cristo.

Fonte: Trecho do Livro “Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão”, do autor Paul Washer, lançamento da Editora Fiel de março.
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Autor
Paul Washer
Paul Washer obteve seu M.Div no Southwestern Theological Seminary. É fundador da sociedade missionária HeartCry, que apoia o trabalho de missões...

sábado, 1 de março de 2014

A corrupção do método: A redução da evangelização



por Morgana Mendonça Santos


Visto não haver outro caminho de salvação a não ser o revelado no Evangelho e visto que, conforme o usual método de graça divinamente estabelecido, a fé vem pelo ouvido que atende à Palavra de Deus, Cristo comissionou a sua Igreja para ir por todo o mundo e ensinar a todas as nações. Todos os crentes, portanto, têm por obrigação sustentar as ordenanças religiosas onde já estiverem estabelecidas e contribuir, por meio de suas orações e ofertas e por seus esforços, para a dilatação do Reino de Cristo por todo o mundo. Jo 14:6; At.4:12; Rom 10:17; Mt 28:19,20; ICor 4:2; II Cor 9:6,7,10. [CFW - XXXV, IV]

A necessidade de uma evangelização fundamentada na soberania de Deus é urgente nos nossos dias, a grande comissão (Mt 28.18-20) foi distorcida no que chamamos hoje de "evangelismo ritualístico", o reduzimos e corrompemos seu verdadeiro significado. Podemos hoje questionar a igreja com essa pergunta: Qual a parte do IDE você, cristão, não entendeu? O significado da palavra corrupção usado no título, se refere ao ato de degenerar, afastar de uma conduta reta ou possuir uma variante. O que vemos hoje é uma intrigante subtração dos métodos e dos conceitos sobre o que significa evangelismo bíblico. Devemos voltar as Escrituras, a teologia bíblica, redefinindo outra vez o sentido, o conceito da grande comissão e suas perspectivas bíblicas. "Missões" não é o alvo final da igreja, porque o propósito final da igreja não é o homem. O alvo final da igreja é a adoração a Deus, isso sim é o nosso propósito final, ou seja, torne Deus conhecido para que os homens possam adorá-Lo. (Sl 117.1) Missões não significa enviar missionários, significa levar a verdade de Deus, as boas novas, através de homens e mulheres pecadores regenerados que entendem o sentido bíblico dessa grande comissão.

Reduzir o método de evangelismo em quatro leis espirituais ou formas de abordagens para declaramos alguém salvo diante de Deus é o maior estrago que a igreja tem feito nos últimos tempos. Chegar para alguém e "perguntar se ele é um pecador", "se ele quer ir para o céu", "se ele deseja fazer uma oração de cinco minutos" e depois confirmar se essa "oração foi feita com sinceridade" para declarar a salvação dessa pessoa é uma grande heresia. Mas você pode questionar dizendo que a própria Escrituras afirma que devemos somente receber a Cristo. De fato, precisamos entender o que significa receber a Cristo. A mensagem deve ser, "arrependei-vos e credes no Evangelho"(Mc 1.15), receber a Cristo pela fé através da sua irresistível Graça. (Ef 2.8) Esse método medíocre, leva a igreja de Cristo a viver confirmando "salvação" daqueles que simplesmente levantam a mão no meio do culto ou dizem que um dia já fizeram uma "oraçãozinha" pedindo para Jesus entrar no seu coração. Definitivamente, concordo com um pregador reformado que diz: "Choremos pelas almas enganadas! Não é por esse tipo de evangelização que Deus manifesta a Sua graça e sim apesar dessa evangelização."

É nítido que boa parte desse movimento evangelístico moderno, ainda que a graça de Deus seja mencionada, não quer dizer que foi compreendida. Sustentam a ideia herética de que pela graça, todos os homens tem a habilidade de escolher acreditar e aceitar o evangelho. Precisamos como igreja quebrar alguns paradigmas, corrigir alguns falsos ensinos que corrompem inteiramente as doutrinas da graça. Contemplamos acréscimos, adições às Escrituras, a igreja foi envolvida numa esfera pragmática, "é verdade que não está na Bíblia, mas funciona", levando a igreja a uma prática evangelística não bíblica porém "válida" - dizem eles. O que temos hoje é um método influenciado por ideias pelagianas ou semipelagianas. Corrompendo sim o método, afirmando ser a graça apenas uma ajuda externa de Deus, um tipo de ação que persuade o homem pela razão, fazendo-o escolher através do seu livre-árbitro o que deve fazer ou não. Fazendo o homem um ser independente, afirmando a ideia de que a fé não é um dom, e sim, uma obra meritória para levá-las à salvação. Podendo assim o homem fazer uma escolha por Cristo, dependendo apenas de sua própria vontade.

Infelizmente é perceptível que muito dos nossos métodos de evangelização provém dessa fraude, calcada em cima de princípios que reconhecem o pecado original como simplesmente uma enfermidade moral. Defendendo com isso que o homem é aquele que dá o primeiro passo em direção a Deus. Notemos o sistema de apelo por decisões iniciado por Charles Finney, levando o homem a tomar uma decisão através de um convite, "pelagiando" assim o efeito da sua conversão. Esse semipelagianismo defendido por Arminio, trouxe em sua totalidade uma influência em quase tudo o que vemos hoje na área da evangelização. Essa visão é completamente incompatível com o pensamento reformado, a visão bíblica sobre a evangelização fundamentada na soberania de Deus. Muitos sem nunca nem ler sobre a teologia reformada, de forma brutal acusam os reformadores de estarem alheios a evangelização.

E quem disse que a doutrina da eleição não leva a evangelização? Precisamos entender que a grande comissão na perspectiva dos Evangelhos e do livro de Atos esta completamente arraigada na soberania de Deus. Sendo assim, de forma soberana ligada aos meios da graça. A eleição não é uma motivação a passividade e sim para atividade. O próprio Calvino, que até hoje é rotulado avesso à evangelização (conheça a sua história) declarou que a evangelização não era opcional, era parte de ser do ser cristão. Não somos responsáveis pelos resultados da nossa evangelização, e sim, pela fidelidade da mensagem e pelos métodos que usamos. O crescimento vem de Deus conforme 1Co 3.6-8. Podemos exemplificar o que foi escrito na lápide do missionário David Livingstone: "Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las". Um missionário que se dispôs ir a África, em constante busca pelas ovelhas do Senhor. Precisamos de homens e mulheres, cristãos, que possam defender as antigas doutrinas da graça, um evangelho centralizado na soberania de Deus, o autor e consumador da nossa fé e da nossa salvação. (Hb 12.2)

A evangelização bíblica que precisamos voltar a saborear é aquela que procura a conversão de pecadores juntamente com o discipulado daqueles que já nasceram de novo. Vejamos como diz o livro A Tocha dos Puritanos de Joel Beek, "A tocha da evangelização foi acesa originalmente, no Velho Testamento. Acesa pelo próprio Deus na primeira promessa messiânica que Ele deu a Adão e Eva, lá no Éden." (Gn 3.15) A evangelização bíblica está fundamenta na soberania divina, dessa forma Deus demonstra que tem os meios para levar avante este projeto evangelístico. Escolhendo João Batista para transpor a tocha da evangelização à era do Novo Testamento, quando Jesus ressurge dos mortos, comissionando seus discípulos para um grande desafio que assegura seu sucesso. (Mt 28.18) Note que os meios que Deus usa na ação da Sua soberania são homens pecadores como nós. Nossa motivação consiste no mandamento do mestre." p. 14,15.

A soberania de Deus no ato de eleger não permite ao evangelista reformado ficar inerte a isso, contudo como Calvino, que nunca foi contra a evangelização, entendia que essa evangelização não deveria ser da forma errada. Entendendo que devemos ir, cumprindo essa ordem para que o propósito final seja satisfeito, no caso, "fazer discípulos de todas as nações", por meio do ensino e batismo (Mt 28.19-20). Precisamos encarar a realidade da grande questão: como devemos ir? A grande comissão foi ordenada para discípulos, portanto, só discípulos irão cumprir. Devemos ir não por uma motivação emocional ou ardor passageiro, não isentando o conhecimento teológico, o nosso sentido de urgência deve preceder um encontro como o do próprio Isaías (Is 6), como diz São Francisco de Assis: "Pregue o Evangelho e se possível use as palavras". É impossível uma evangelização sem teologia, creio que temos uma missão de evangelizar para evangelizarmos com a missão de ensinar tudo o que Jesus ordenou para que seja obedecido. (Mt 28.20) "Todo cristão ou é um missionário ou um impostor" Charles H. Spurgeon.

Voltemos ao Evangelho, as Escrituras, Soli Deo Glória.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ser discípulo x Ser gospel




por Morgana Mendonça Santos


"Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído" 


Isaías 29.13

No dicionário Aurélio encontramos o significado da palavra "discípulo": 1. Aquele que recebe disciplina ou instrução de outro, aluno. 2. Que segue as ideias, imita os exemplos de outro. Na Bíblia, vemos a relação de Cristo com os seus seguidores. Na sociedade grega antiga, ser discípulo era a descrição de um aluno ou aprendiz de um homem sábio. Uma pessoa que buscava conhecimento, sabedoria e se submetia a um talentoso professor. A definição no Novo Testamento é dado por aquele que crê em Jesus Cristo e por conta disso gasta o restante da sua vida seguindo os meios de Graça. Discípulo é aquele que submete cada área da sua vida ao Rei e nenhuma área de sua vida é excluído da Sua autoridade. Encontramos no Novo Testamento apenas três vezes os seguidores de Cristo sendo chamados de cristãos (At 11.26, 26.28 e 1Pe 4.15-16), começando em Antioquia quando Paulo e Barnabé estavam lá. (Atos 11.26) Porém o termo "discípulo" é encontrado diversas vezes nas Escrituras. Podemos assemelhar o termo “discípulos” com o termo “cristãos”.

O significado da palavra "gospel" (inglês), que quer dizer em português "evangelho" ou "evangélico" vem do estilo cantado pela comunidade negra dos EUA, fazendo uma mistura de conceitos cristãos e devoção popular. Esse conceito vem a cada dia sendo firmado numa falta de compreensão sobre aquilo que é santo e profano. Ser gospel é ser Cristão? Porque ser cristão é ser discípulo de Cristo. Notamos hoje não o significado primário do movimento gospel, observamos tudo sendo inflamado pelo conceito moderno de "ser gospel". O que vem afinal a ser isso? Ser um moderno cristão ou ser um cristão contextualizado? Hoje em dia notamos o termo para tudo, a música é gospel, o site de relacionamento para encontrar o seu amado é gospel, a "ficada" é gospel, a inveja é gospel, a boate é gospel, o bloco carnavalesco é gospel, já existe até comentários de filmes de pornô gospel, o fuxico é gospel, a moda dos artistas é também gospel e por aí vai...

"E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens"

Marcos 7.6-7

O profeta Isaías, citado pelo próprio Cristo, nos evangelhos (Mt 15.8-9), vem nos trazer uma imagem da realidade hipócrita, da falsa adoração e espiritualidade em que o povo estava sujeito. Jesus advertindo os fariseus e os escribas contra o mesmo falso cristianismo, que precedia das tradições humanas e não da obediência fiel aos mandamentos divinos. Uma classe de "gospeis", que em vão adoravam ao Senhor, os seus lábios pervertidos causavam náuseas e os seus corações não tinham fundamentos em Cristo, uma pratica incoerente com o que se falava. Ser gospel é não ser cristocêntrico e sim antropocêntrico. É totalmente necessário causar essa exposição das diferenças que existe hoje em nosso meio. Parece que há muito tempo virou moda no nosso país o "ser gospel", invertendo e enfraquecendo o conceito no qual define o ser cristão: discípulo de Cristo. Ao meu ver, precisamos ser radicais, ao defender a fé com coragem (Jd 1.3). Precisamos refletir a imagem de Cristo (Rm 8.29) no nosso viver diário, creio que esse seja o caminho para colocarmos as diferenças em plena luz e sendo assim o mundo identificará que somos discípulos de Cristo (João 13.35). Não somos de Paulo, nem de Apolo (1Co 3.4-5), não somos “gospeis”, não temos orgulho por sermos católicos (já viu esse adesivo de carro?), não somos universais conforme o comercial da IURD*, somos de Cristo, somos cristãos e devemos ser verdadeiros seguidores conforme a semelhança do Mestre.

O teólogo John Stott, no seu último livro, que tem por título “Discípulo Radical”, explica o termo radical afirmando ser uma palavra derivada do latim "radix", que significa raiz. "Referindo-se aqueles cujas opiniões vão às raízes e que são extremos em seu compromisso. Juntamos então o substantivo com o adjetivo: Discípulo radical. com isso teremos um objetivo em nossa vida cristã" (pág.10). Continuando seu livro, ele expõe oito caraterísticas que precisamos ter como discípulos nesse mundo pós moderno: 1. o inconformismo, 2. a semelhança de Cristo, 3. a maturidade, 4. o cuidado com a criação, 5. a simplicidade, 6. o equilíbrio, 7. a dependência e 8. a morte. 

Não teríamos como - nesse meu pequeno texto - abordar todas a características. O autor destaca quatro tendências seculares que ameaçam subjugar a comunidade cristã, ele diz: "Diante do desafio do PLURALISMO, devemos ser uma comunidade de verdade, declarando a singularidade de Jesus Cristo. Diante do desafio do MATERIALISMO, devemos ser uma comunidade de simplicidade, considerando que somos peregrinos aqui. Diante do desafio do RELATIVISMO, devemos ser uma comunidade de obediência. Diante do desafio do NARCISISMO, devemos ser uma comunidade de amor" (pág.20). No entanto, esse ponto trata do inconformismo do cristão em relação ao mundo. Fica aqui uma indicação (e a reflexão) para que sejamos discípulos de Cristo nesse mundo cada vez mais “gospel”!

Precisamos ser uma igreja relevante e não uma igreja “gospel”. Uma igreja que tem alicerce e fundamentos de acordo com as Escrituras e não associada a influência mundana ou cultural. Uma igreja inconformada com esse mundo e não uma classe de "evangélicos" modernos relativizando tudo. Que fique no nosso coração arraigado as palavras de Cristo aos seus discípulos: 

"Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, acha-la-á" 

Mateus 16.24-25. 

Queremos ser discípulos do Senhor não o provocando a dizer: "E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?". Lc 6.46 Deixamos isso, para aqueles que se denominam "gospeis"! A Deus toda Glória.
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*Igreja Universal do Reino de Deus

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Comentários a cerca da Ceia do Senhor.



(Texto escrito para publicação em Caderno Especial de “O Estandarte”,
na edição do mês de outubro de 2001)
A REFORMA E OS SACRAMENTOS: A CEIA DO SENHOR

Introdução
Tenho a impressão de que a maioria dos membros de nossas igrejas, inclusive presbíteros(as) e pastores(as), não sabem o significado da Mesa do Senhor.
Certa vez participei do culto em uma de nossas igrejas e a Ceia foi celebrada antes do sermão. Já presenciei celebrações em que ao invés de se elevar a Deus uma oração de “ação de graças” (aliás, o significado da palavra “eucaristia”), o pastor orou “consagrando os elementos” da Ceia. Ouvimos de pastores(as) e membros da igreja que o pão e o vinho são apenas símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Há algum tempo atrás, um antigo membro da igreja me disse: “Seria ruim se nós participássemos da Ceia todo domingo. A Santa Ceia ia se tornar uma coisa rotineira. É bom quando acontece uma vez por mês. Todo mundo fica esperando o primeiro domingo. A igreja fica cheia nesse dia...”. E o que dizer do “clima” da celebração da Ceia? Os membros seguram o pão e o cálice em suas mãos e participam em um misto de solenidade e tristeza.
Estas cenas observamos em nossas comunidades. Por isso pergunto: o que está acontecendo no momento em que celebramos a Ceia do Senhor? Seria proveitoso que, quando comemoramos mais um aniversário da Reforma Protestante, buscássemos responder a essa questão voltando os nossos olhos para os próprios reformadores, especialmente João Calvino. É o que pretendemos fazer.


A Ceia do Senhor Antes da Reforma
Como estava a liturgia antes da Reforma?
O culto não ia nada bem. A Igreja estava dividida entre clero e leigos. A liturgia era alguma coisa que o sacerdote fazia em favor do povo. O sacerdote fazia, o povo assistia. Passou-se a desvalorizar a Palavra e sua proclamação no culto. A missa era realizada em latim. Os leigos nada compreendiam. O povo também não falava e nem orava no culto. Tudo era feito pelo sacerdote, de maneira incompreensível e muitas vezes inaudível. Restava ao povo contemplar o que estava acontecendo.
E quanto à Ceia do Senhor? Na liturgia, tudo servia como preparação para a Eucaristia. A missa eucarística era entendida como um sacrifício que o sacerdote apresentava pelos pecados do povo. Era como se o sacrifício de Cristo fosse repetido. Desenvolveu-se nessa época a idéia de que os sacramentos causam a graça de Deus. Não é Deus quem, diretamente, causa a graça. Os sacramentos eram entendidos como eficazes por si mesmos, tinham poder próprio. Contudo, quem celebrava os sacramentos era o clero. O sacerdote era um ser poderoso, que administrava e infundia a graça. Tudo dependia de sua consagração. Imaginava-se que, a partir dessa consagração, as substâncias do pão e do vinho eram transformadas, respectivamente, nas substâncias do corpo e do sangue de Cristo. O povo, ao receber a hóstia consagrada, recebia verdadeiramente a carne de Cristo e o sacerdote, ao beber do cálice, bebia verdadeiramente o sangue de Cristo. Essa doutrina foi chamada de “transubstanciação”.
O povo começou a sentir-se muito indigno de participar da Ceia do Senhor, pois tratava-se do próprio corpo natural de Cristo presente. Induzido pelo clero, deixou de comungar com regularidade. Ao povo só restava contemplar e adorar a hóstia, a carne e o sangue de Cristo presentes diante de seus olhos. O ponto alto do culto era quando o sacerdote fazia Cristo tornar-se corporalmente presente na Ceia.


A Reação dos Reformadores e Suas Divergências Quanto à Ceia do Senhor
A Reforma transformou a liturgia. Os reformadores procuraram: - restaurar a idéia de que o culto é uma tarefa de todo o povo de Deus; - recuperar a importância das Escrituras e do sermão no culto; - realizar o culto na língua que o povo entendia; - aumentar a freqüência da celebração da Ceia; - varrer da liturgia a suntuosidade e tudo aquilo que havia sido agregado por conta da tradição.
Os líderes da Reforma concordavam em muitos assuntos, mas não concordavam em tudo. O pensamento acerca da Santa Ceia foi um dos motivos de divisão entre eles. Citaremos, rapidamente, as opiniões de Lutero, Zuínglio e Calvino sobre esse assunto.
Lutero, junto com os outros reformadores, negou boa parte das doutrinas romanas sobre a Ceia. Não aceitava a Eucaristia como obra meritória. Não aceitava a Eucaristia como uma repetição do sacrifício de Cristo. Não aceitava que o cálice da Santa Ceia fosse negado aos fiéis. Não aceitava o “milagre supérfluo” da transubstanciação. Para Lutero, a Ceia do Senhor, ao lado da proclamação da Palavra, era o centro do culto. O sacramento vale pela graça que o acompanha e é eficaz na medida em que o povo participa dele com fé.
Lutero acreditava que a presença de Cristo na Ceia vai além de uma presença simbólica. Entendia que, o corpo de Cristo pode se fazer presente na Ceia, da mesma forma como a sua natureza divina se fazia presente no homem Jesus. Para Lutero, na Ceia, ao mesmo tempo em que estão presentes o pão e o vinho, também estão presentes o corpo e o sangue de Jesus, ou seja, o corpo e o sangue de Cristo estão presentes “em”, “com”, “debaixo”, “ao redor” e “por trás” do pão e do vinho. Esta doutrina ficou conhecida como “consubstanciação” e acabou se tornando o ponto de conflito entre o reformador alemão e os reformadores suíços. Entre eles, Zuínglio.
Zuínglio queria que tudo estivesse de acordo com a Bíblia. Por isso, restaurou em Zurique a celebração da Ceia em ambas espécies. Para ele, a presença corporal de Cristo na Ceia era inútil. O corpo de Cristo encontra-se no céu ao lado do Pai e não pode se fazer presente na terra durante a Ceia. O corpo natural de Cristo não pode ser “mastigado”. Só podemos enxergá-lo com os olhos da fé. Mas Cristo não está ausente na Ceia. A Ceia é mais do que um ato humano. Ela é o sinal da graça de Deus. Se Deus não está presente, a graça e a resposta de fé não acontecem.
Zuínglio acreditava que a Ceia do Senhor é um ato de comemoração e representação simbólica da paixão e morte de Jesus, uma lembrança do sacrifício suficiente de Cristo. A Igreja, ao comungar, transforma-se no Corpo de Cristo.
Zuínglio aumentou a freqüência da celebração da Eucaristia de uma para quatro vezes ao ano. Assim o povo participava mais vezes da Ceia e a Mesa era “protegida” daqueles que não observassem uma vida cristã impoluta. Quando a Ceia não era celebrada, realizava-se o culto com o sermão. O resultado era que, na maioria dos cultos, a Palavra e a Eucaristia estavam separados.
E Calvino, o que pensava? Para Calvino, a consubstanciação de Lutero encerrava a presença física de Jesus no pão e no vinho, e o simbolismo de Zuínglio esvaziava a Ceia da presença do Senhor. Calvino afirmava que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia. Esta presença não é física, como na transubstanciação e na consubstanciação, mas nem por isso deixa de ser real e válida. Para Calvino, falar da presença de Cristo na Ceia é falar de um mistério. Só podemos sentir a sua presença pela fé. Só podemos entender a sua presença real e espiritual se levarmos em consideração a ação do Espírito Santo. É o Espírito quem torna possível a santa presença na Ceia.
Calvino defendia que os símbolos da comunhão nunca são coisas vazias, lembranças do sacrifício de Cristo. Os símbolos foram escolhidos por Deus para comunicar a sua graça. Os símbolos não se transformam, não se misturam, não se confundem com a realidade que querem significar. A realidade do sacramento e os símbolos são coisas distintas, possuindo, porém, afinidade na medida em que Deus, por seu Espírito, está agindo. E isto só acontece para aqueles que possuem fé.
Para Calvino, a Ceia do Senhor é o banquete que sustenta a vida cristã. Todos aqueles que foram admitidos à Igreja pelo Batismo, precisam ser nutridos pela Eucaristia. Na Mesa, o Cristo ressurreto comunica a vida. O ser humano é fraco e imperfeito. Sua fé é insuficiente. Precisa alimentar-se de Cristo. Este alimento espiritual só se encontra na Palavra proclamada e selada na Ceia do Senhor. Por isso Calvino insistia para que a Ceia fosse celebrada em todo o culto, pois somos fracos e precisamos ser nutridos por Deus.
Um último ponto. Para Calvino, não existe Ceia fora da Igreja e não existe Igreja sem a Ceia do Senhor. A Ceia é para a comunidade dos batizados e deve ser sempre celebrada no contexto do culto.

Conclusão
Concluindo. Todos os reformadores entendiam que a Ceia do Senhor era essencial no culto e na vida cristã. Ainda assim divergiam. Essas divergências focalizavam-se na questão da presença de Cristo na Ceia. Todos concordavam que Cristo se faz presente na Ceia. Discordavam quanto à forma dessa presença. Nós, presbiterianos, fomos influenciados pelas idéias de Zuínglio. Por um lado, ignoramos a opinião de Calvino sobre a presença de Cristo na Ceia e dizemos que o pão e o vinho são símbolos do corpo e do sangue de Jesus. Por outro lado, realizamos mais cultos onde a Palavra é proclamada e a Ceia não é celebrada.
O pensamento dos reformadores, em especial o de João Calvino, nos desafia. Deveríamos refletir mais a respeito da freqüência da celebração da Ceia. O que impede que celebremos sempre a Eucaristia? Até que ponto não tornamos a Ceia um apêndice mensal em nossas liturgias? Uma outra questão que tem dividido nossa denominação é a participação de todos os batizados, inclusive as crianças, na Ceia do Senhor. O que, de fato, é indispensável para aqueles que desejam participar da Mesa? Consciência, vontade ou fé? Só os adultos precisam da Ceia? O que João Calvino diria sobre isto?
Precisamos conhecer o significado dos sacramentos. Isto não tem acontecido. Gostamos de discutir e opinar sem estudar. Espero que este texto seja um estímulo para aprofundamento. Indico três livros que consultei: - “Uma História Ilustrada do Cristianismo – Vol. 6 – A Era dos Reformadores”, de J. L. Gonzalez, Ed. Vida Nova; - “O Pensamento da Reforma”, de H. Strohl, ASTE; e - “Grandes Temas da Tradição Reformada”, (ed.) Donald K. Mckim, editado no Brasil pela Associação Evangélica Literária Pendão Real.



Autor: Rev. Emerson R. P. dos Reis
Pastor da IPI de Casa Verde
Presbiterio Santana